Sem veneno, por favor!

Sem veneno, por favor!

Produtos orgânicos preservam a biodiversidade e levam mais saúde à mesa do consumidor

ORGÂNICOS - Saúde na mesa do consumidor - Fotos: Fernanda MannORGÂNICOS – Saúde na mesa do consumidor – Fotos: Fernanda Mann

Longe do romantismo bucólico, os alimentos orgânicos são, muitas vezes, prescrição médica. Mas será que vale mesmo a pena optar por eles? O que têm de diferente dos outros alimentos? Não são mais caros? E como saber se estamos diante de um produto verdadeiramente saudável?

Segundo a professora Maria Clara da Silva, de 60 anos, sim. Vale a pena. Por causa de um câncer no ovário, o médico recomendou que ela se alimentasse, prioritariamente, de produtos orgânicos. Ela mesma, depois de curada, nunca mais conseguiu voltar atrás. Tornou-se cliente assídua da feirinha próxima à sua residência e diz ser notável a melhora em seu estado geral de saúde. Outra vantagem, apontada por ela, é que “os molhos de couve e outras hortaliças, por exemplo, vêm mais caprichados. Pago um pouquinho a mais na alimentação, para economizar no médico e nos remédios. Acho que é uma troca justa!”

CARO QUE SAI BARATO

O maior custo dos orgânicos, em geral, também é compensado, pelo fato de terem maior durabilidade, como aponta Adriana Campos, responsável pela venda a supermercados e gerência das lojas Fito, empresa pioneira na produção de orgânicos, há 17 anos em Belo Horizonte. Ela explica que o orgânico é mais caro porque não dispõe das estratégias e tecnologias utilizadas na produção dos alimentos convencionais. “Se uma praga ataca a plantação não orgânica, o produtor aplica o “remédio” com uma máquina e pronto! O pior é que esses são verdadeiros venenos à saúde. Muitos dos agrotóxicos utilizados no Brasil são proibidos em outros países”.

Além da ausência de produtos químicos, os nutrientes da terra são “fabricados” de forma natural, por meio do processo de compostagem. No caso da Fito, as verduras e folhas que sobram são usadas nesse processo, dando origem a um adubo mais rico e, consequentemente, a um alimento mais nutritivo. “A natureza gosta e dá retorno. Quanto mais se planta de maneira orgânica, melhor fica o ecossistema inteiro”, comenta Adriana.

Em vez de agrotóxicos, a produção de orgânicos trabalha com a prevenção. Mas há sempre o risco. No caso das pragas, às vezes, só a prevenção não é suficiente, e toda uma produção pode ser perdida, encarecendo o produto. Além disso, as sementes são mais caras e o trabalho é totalmente manual. Por isso, há que se oferecer boas condições de trabalho aos funcionários. Tanto por respeito ao ser humano, quanto para atender aos quesitos exigidos pelos órgãos de fiscalização.

A nutricionista e doutora em Ciência e Tecnologia dos Alimentos Rita Ribeiro concorda com Adriana. Ela acredita que o preço do produto se justifica por ser um alimento que não traz danos à saúde, é mais saboroso e crocante. Pondera ainda que “quem se alimenta de orgânicos faz uma escolha ética, pois, além de cuidar da própria saúde, preserva o meio ambiente e ajuda os pequenos produtores rurais a ter melhor renda e condições de trabalho”. Adepta a esse tipo de alimentação, ela cultiva hortaliças, ervas e frutas em seu próprio apartamento. Uma opção criativa e que sai mais em conta. Fica a dica.

PRODUTORES E PRODUÇÕES

JANIS E JOSÉ Produtores há 16 anos, estão sempre presentes, nas feiras de orgânicos da prefeitura

Janis dos Santos Avelar e o marido José Estevão Avelar trabalham na produção e venda de orgânicos, há cerca de 16 anos. Há 13, estão presentes nas feiras da prefeitura, em diferentes bairros de Belo Horizonte. José conta que, na horta deles, é fácil perceber que se trata de uma produção orgânica. “A gente ouve os insetos e vê passarinhos em volta dos girassóis. Esses atraem besouros que comem, cada um, mil pulgões por dia. Utilizamos também ervas, como a cidreira e o cravo, que espantam determinadas espécies. As lagartas, nós catamos a mão”.

A cidade de Capim Branco, a 53 km de Belo Horizonte, onde eles têm a produção, “era conhecida como a terra do alho, mas de tanto usarem “remédio”, deu uma doença na terra que inviabilizou esse tipo de plantio. Com o orgânico é o contrário. A natureza só agradece e dá mais frutos”, conta José.

Janis acrescenta que todo o cuidado não basta dentro de sua área. É necessário contar com a consciência dos vizinhos. “Não adianta meu sítio estar nos conformes, se meu vizinho utiliza agrotóxico no sítio dele. O veneno contamina a terra e, pior, os cursos d’água. Existem produtos que contaminam o solo por dezenas, e até centenas de anos.

CONSUMIDOR TEM DIREITO DE SABER

Existem duas maneiras de reconhecer um alimento orgânico. A primeira é conferir se, na embalagem dos produtos, consta o selo do governo. Muitas vezes, há também o selo de alguma empresa certificadora. Outros alimentos, como verduras e hortaliças, nem sempre vêm em embalagens, onde constaria o selo. Neste caso, trata-se de uma venda direta, que acontece entre o produtor e o consumidor final, sem intermediários. Uma das vantagens é que favorece preços mais justos.

EM QUEM CONFIAR

Considerando essa realidade, as leis brasileiras abriram uma exceção à obrigatoriedade da certificação pelo selo. Assim, os agricultores familiares podem vender diretamente seus produtos. Mas, para isso, precisam estar vinculados a uma Organização de Controle Social (OCS) de modo que o consumidor sempre possa tirar suas dúvidas sobre o processo de produção.

A OCS pode ser formada por um grupo, associação, cooperativa ou consórcio, com ou sem personalidade jurídica, de agricultores familiares. Ela só será reconhecida se existir de forma organizada. Os objetivos são orientar os agricultores sobre a forma correta de produzir e exercer um papel fiscalizador, entre os próprios participantes do grupo, os consumidores e os órgãos governamentais.

Uma vez formada, a organização é cadastrada nas Superintendências Federais de Agricultura ou em órgãos fiscalizadores. Esse procedimento garante que os direitos dos consumidores e bons produtores sejam respeitados e que os “maus produtores” não possam vender seus produtos, com a chancela de “orgânicos”.

CONTROLE RÍGIDO

O coordenador da Comissão da Produção Orgânica em Minas Gerais, Gil Teixeira, ressalta que o controle dos órgãos fiscalizadores é bastante rígido. As exigências passam pelo registro de todos os que trabalham na produção, o recolhimento da declaração daqueles que se afastam ou saem do grupo, o controle de tudo o que é produzido, tanto da variedade, quanto da qualidade e da quantidade por unidade de produção familiar. Segundo ele, representantes do Ministério  da Agricultura fazem vistorias anuais e chegam no local , sem prévio aviso.

Existem no Brasil algo em torno de 10 mil produtores em uma área de aproximadamente um milhão de hectares. Somos o país com maior mercado consumidor de orgânicos da América Latina, mas a demanda ainda supera a oferta. Gil ressalta que, se mais produtores passarem a produzir orgânicos, os custos serão cada vez menores e, cada vez mais pessoas terão acesso, o que retroalimenta a dinâmica. “O mais importante é difundirmos essa consciência.”


É TRISTE, MAS É VERDADE!

O Brasil é, hoje, o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Em média, cada brasileiro consome 5,3 quilos de veneno agrícola por ano. Pesquisas mostram que alguns produtos como tomate, alface e morango são contaminados por agrotóxicos proibidos para o consumo. Muitos deles podem causar problemas hormonais e até câncer. E não adianta lavar os alimentos ou mergulhá-los em soluções, porque muitos agrotóxicos penetram nos vegetais.


VENDE ORGÂNICO?

MUDANÇA A professora adotou alimentação orgânica e melhorou a saúde

Hoje praticamente todos os supermercados apresentam opções de alimentos orgânicos.Às vezes em um setor especifico, às vezes em meio aos alimentos convencionais.

O importante é olhar a certificação.

Para orientar os clientes as informações podem estar:

No rótulo, se existir, em materiais de divulgação e em avisos colocados nos locais onde o produto está sendo vendido;

Em caso de venda direta, o produtor deve ser identificado, assim como a OCS a qual ele está vinculado;

Os produtos sem certificação não podem fazer uso do Selo do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica. Mas a legislação permite que o agricultor coloque no rótulo do produto, ou no ponto de venda a expressão: produtos orgânicos para venda direta por agricultores familiares organizados, não sujeito à certificação, de acordo com a lei nº 10.831, de 23 de setembro de 2003.

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